Existem alturas em que temos que fazer escolhas. Muitas vezes são fáceis e as consequências não são significativas, mas existem decisões que alteram completamente a nossa vida. Sempre tive mais ou menos uma ideia de como iriam ser os próximos 5 anos da minha vida em termos profissionais: terminar o curso e trabalhar a full-time como programador. Durante o último ano, na sequência de alguns projectos do Mestrado, foi-me sugerido um caminho alternativo: o doutoramento. Inicialmente esta hipótese gerou um dilema. Para além, de nunca a ter ponderado, visto já ter uma grande convicção de como seria o meu futuro, existiam alguns aspectos que contribuíam para a minha indecisão
Seriam 3 a 4 anos dedicados a investigação direccionada para uma área muito restrita. Este tipo de especialização poderia, no futuro, fechar algumas portas: duvido que hajam muitas empresas dedicadas à programação que contratem doutorados e não tenho a certeza se a área da investigação tem muita procura em Portugal. O ensino universitário seria, muito provavelmente, a futura carreira profissional. Por falar em Portugal, esse também foi dos pontos que me fez ficar de pé atrás. A conjuntura actual não é convidativa para os jovens licenciados/mestres e uma das opções que estavam na mesa era “fugir” para o estrangeiro, algo que seria impossível começando um doutoramento cá.
Fazer um doutoramento sem bolsa é extremamente complicado, e esse seria um dos requisitos essenciais para optar por este caminho. As propinas são muito elevadas e é algo que requer atenção a tempo inteiro. Trabalhar e fazer um doutoramento seria demasiado desgastante, e já tive a minha dose de trabalho e estudo simultâneo nos últimos dois anos e meio. As condições oferecidas aos bolseiros não são péssimas, no entanto não são excelentes. Um bolseiro não tem IRS, por isso se ao fim de 4 anos quiser pedir um empréstimo para comprar casa, é como se não tivesse trabalhado. Recebem 12 meses (não há subsídios de férias/Natal), se bem que nesta altura toda a função pública está numa situação semelhante. Tenho a certeza que um bolseiro estará sempre a receber abaixo do actual valor de mercado para um recém-licenciado na área da Informática .
Parece que só consigo encontrar pontos negativos, porém existe o outro lado da balança. Iria trabalhar numa área que adoro (Robótica e Inteligência Artificial) e não teria que lidar com clientes. Seria um desafio enorme (sou fanático por desafios), faria os meus próprios horários e não teria que dar justificações a ninguém, desde que fosse responsável, disciplinado e avançasse o trabalho. As potenciais remunerações futuras também são bastante boas.
Escolhi o doutoramento. Sei que se fizer uma análise racional, esta poderá não ser a escolha mais lógica, mas por vezes temos que fechar os olhos e seguir o nosso instinto.
Candidatei-me em Maio a uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que foi recusada em Setembro devido a um erro da parte do avaliador. Recorri e aguardei 3 longos meses por uma resposta. A espera foi extremamente enervante! Já tinha decidido o caminho que queria seguir, mas existia a hipótese de me recusarem essa oportunidade devido ao erro de outra pessoa. Finalmente, no final de Dezembro, reconheceram o erro e atribuíram-me a bolsa.
Irei ingressar este ano no Programa Doutoral do ISCTE-IUL. O caminho que me espera não é fácil, mas darei o meu melhor. Completar um doutoramento não está relacionado com inteligência, mas sim com trabalho árduo e perseverança. A minha experiência de trabalhador-estudante durante os últimos ambos ensinou-me bastante sobre ambos, por isso espero estar à altura do desafio e que daqui a 4 anos olhe para trás a sorrir por ter tomado a decisão certa.


